Dada a qualidade da laranja nordestina, que é afetada principalmente pelo processo de colheita não seletivo onde se colhem indiscriminadamente frutos maduros, imaturos, verdes e miúdos, o preço corrente da tonelada posta nas indústrias de Estância (SE), de R$ 1.200,00, converte-se no bolso do fornecedor em cerca de R$ 740,00. Essa desvalorização é reflexo direto da baixa qualidade da matéria-prima entregue, sendo que apenas R$ 800,00 são pagos devido ao baixo ratio (relação entre sólidos solúveis e acidez, atualmente em torno de 12, quando o ideal seria entre 14 e 16), além da presença excessiva de frutos verdes. Soma-se a isso a média de 3% de refugo aplicado pelas indústrias, devido à presença de frutas fora do padrão mínimo de processamento.
Essa realidade é agravada pela ausência de um manejo técnico eficiente nas lavouras. A falta de orientação agronômica, aliada à urgência de comercialização por parte de pequenos e médios produtores, contribui para a antecipação da colheita, que compromete o potencial de rendimento industrial e a aceitação da fruta no mercado in natura. Em vez de adotarem práticas de colheita seletiva, que garantiriam maior qualidade e melhor remuneração, muitos produtores ainda utilizam mão de obra não capacitada, agravando o problema.
Com a proximidade do inverno (mais frio na região Sudeste e chuvoso no Nordeste), as vendas tendem a cair ainda mais, estrangulando as opções de colocação da fruta e fazendo o preço despencar ainda mais. As chuvas frequentes também dificultam a colheita no tempo correto e aumentam os riscos de doenças fúngicas, como a pinta preta e a podridão floral, que afetam diretamente o aspecto visual e a qualidade da fruta.
Em São Paulo, a situação também não é diferente. Apesar de contar com maior estrutura e tecnificação, muitos lotes de frutos com ratio abaixo do aceitável continuam sendo oferecidos às indústrias e rejeitados. O preço pago pelas indústrias, de janeiro a abril, já sofreu queda de 50%, acompanhando, de certa forma, o movimento do mercado internacional, especialmente o europeu que é um dos principais destinos do suco brasileiro. A retração do consumo nos países da União Europeia, aliada a estoques elevados e à concorrência de sucos de outras origens, pressiona ainda mais os preços no Brasil.
Redes de supermercados relatam, de forma generalizada, quedas de até 85% nas vendas de laranja in natura, reflexo direto da baixa qualidade dos frutos expostos, com miolos secos, casca manchada e baixo teor de suco. Esse cenário evidencia a urgência de reestruturação da cadeia produtiva, com foco em qualidade, rastreabilidade e profissionalização da atividade citrícola nas regiões produtoras.
Se medidas estruturantes não forem adotadas, como o incentivo à colheita seletiva, uso de tecnologias para medição de maturação e melhorias logísticas, a citricultura nordestina continuará sofrendo perdas significativas de valor agregado, comprometendo sua sustentabilidade a longo prazo.
Fonte: CitrusBR – Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos; CEPEA – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada; Análises de especialistas do setor citrícola.